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Portugal termina esta terça-feira a participação na fase de grupos da Liga das Nações e, independentemente do resultado que venha a conseguir em Guimarães, já ninguém lhe tira o sucesso da transição para o pós-Mundial da Rússia. O primeiro lugar do grupo e as vitórias plenamente justificadas sobre a Itália (na Luz) e na Polónia são a prova "palpável" dessa constatação; o futebol exibido - sobretudo nesses dois jogos, um pouco menos em Milão -, a ramificação positiva de uma seleção que, afinal, sabe ser bem mais versátil e apaixonante do que parecia.
Este é o ponto de partida para um assunto delicado, ainda que mais tarde ou mais cedo se torne inevitável: o do futuro de Portugal sem Cristiano Ronaldo. O capitão, que já vive no pedestal dos deuses, abriu ele mesmo a porta para este debate, ao pedir escusa para os cinco compromissos que a seleção nacional tinha na agenda depois de cair nos oitavos de final do Campeonato do Mundo. E ao ceder mais espaço aos que se perfilavam atrás dele, Cristiano, ainda que involuntariamente, permitiu que todos ficássemos um pouco mais descansados em relação ao futuro.
É que os duelos que se seguiram à queda diante do Uruguai mostraram uma equipa portuguesa reprogramada. Mais solta, mais versátil, mais difícil de prever e, consequentemente, de anular. E - até a mim me custa escrever isto, perdoa-me Cristiano -, isso deve-se em parte à ausência daquele que tem sido o melhor jogador do mundo nos últimos anos. Não porque as qualidades de Cristiano não servem à seleção, mas porque a sua figura, a sua aura, o seu "peso" são inconscientemente aspetos que inibem as tomadas de decisões dos restantes.
Sem Cristiano, a equipa viu-se "obrigada" a procurar outras soluções para dar corpo às suas ideias; sem o "farol" para o qual todos olhavam quando a bola entrava no último terço, Portugal teve de inventar novas "luzes" para iluminar o caminho até ao sucesso. E a verdade é que conseguiu, aliando àquilo que já vinha tendo com o capitão - sucesso - outro aspeto que, queira-se ou não, nos roubava um pouquinho o prazer da seleção: qualidade futebolística, com o jogo na Polónia, na minha opinião, a ser o expoente desta "nova" equipa portuguesa.
E tal como Cristiano assumiu as pegadas de Figo, talvez este seja o momento de Bernardo Silva se assumir, definitivamente e sem sombras, como a nova estrela de Portugal; creio que lhe faria bem ter nos ombros essa responsabilidade. Mas não só. Há tanto talento a quem Fernando Santos confiou a missão nesta transição, que seria quase um pecado travá-lo em nome do regresso à segurança de CR7 - falo de Bruma, por exemplo. Este talvez seja o momento - difícil, admito - de nós portugueses nos curvarmos perante o capitão em jeito de agradecimento e... despedida.
Cristiano, escuta-me: sou teu fã incondicional, um defensor acérrimo daquilo que representas enquanto futebolista e atleta, o primeiro a saltar para a linha da frente quando atacam o teu estatuto (e eu vivo na Alemanha, acredita que tenho de o fazer muitas vezes). Jamais, enquanto andar por cá, me vou esquecer que foi contigo como comandante que alcançámos a nossa maior vitória, que te tornaste lenda acima de Eusébio - e isso quer dizer tanto. Portanto, não me leves a mal o que escrevi, mas acho que nos vamos divertir os dois a ver estes novos "putos" a jogar à bola.